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Melhor Política

Melhor Política

A cantiga continua a ser uma arma.

Maio 15, 2022

Sérgio Guerreiro

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Na Eurovisão, raras são as vezes em que a questão musical e a sua qualidade se sobrepõe às mais variadas questões políticas internacionais. Nesta última edição, a tradição manteve-se e ainda bem. Isto é, a questão política internacional conseguiu vencer em detrimento de uma outra qualquer análise do foro da qualidade musical ou de outro aspecto mais técnico que deixo para os entendidos discutirem. 

O apoio dos países participantes neste festival, era uma clara evidência e foi totalmente incondicional. Já José Mário Branco defendia que “ a cantiga é uma arma", e de facto, ficou provado neste festival da Eurovisão que é assim mesmo.

A prova de que a política influência os resultados ficou bem latente nesta edição, mas não poderia haver outra mensagem senão aquela que na verdade foi dada.

Se, e mera opinião pessoal, de facto havia melhores canções podendo existir alguma injustiça na escolha vencedor numa óptica mais artística, a importância extraordinária desta vitória reside num valor e  bem maior: a Europa continua unida contra a Rússia e foi a cantiga quem o disse. No fundo, e pelos dias que correm, é na verdade isto que importa. Tudo o resto, agora não interessa mesmo nada. 

 

Que sociedade queremos?

Outubro 10, 2021

Sérgio Guerreiro

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A questão raramente é levada a debate. Quando se faz referência à expressão “ debate” pretendesse incluir nele toda a sociedade. A democracia, ao contrário daquilo que muitos possam pensar, não se esgota nas mais diversas eleições. A democracia vai muito para além disso, e hoje enquanto cidadãos vivemos no lado errado da história. Alienados de tudo o que nos rodeia deixamos de discutir a nação, o seu futuro e o seu caminho.

 

Vivemos na constante preguiça de não pensar, de não interrogar coisa alguma e vamos procrastinando o país como se o amanhã não tivesse interesse algum.

De facto, creio, que vivemos enquanto cidadãos numa despreocupação tão atroz como assustadora da forma como pensamos sobre a herança que vamos deixando. Ela será totalmente afectada pelas nossas escolhas, pela nossa passividade de agir enquanto parte de um colectivo que deve, despedindo-se de qualquer preconceito ou ideologia, realizar urgentemente um debate ao redor deste tão importante desígnio nacional: Que sociedade queremos?

 

Não podemos aceitar viver numa sociedade onde uma determinada elite impera e comanda o destino de todos esvaziando grande parte do corpo social do conceito que nos leva à ascensão dos mais variados aspectos do desenvolvimento de uma nação: a liberdade de pensar e de agir.

 

Hoje, o poder irrompe pelas nossas vidas castrando a nossa ação; o poder do estado que regula quase tudo e quase todos, corrói o desenvolvimento social e pessoal como todos tivéssemos amarrados aos pés uma bola de chumbo que não nos permite avançar mais um pouco. Temos um estado presente nos mais variados sectores da nossa vida em nome do poder pelo poder e não em nome do progresso da nação e de cada cidadão a fim de construir de uma sociedade mais justa e mais livre.

 

Vivemos amarrados a uma ideologia autoritária que vai crescendo aqui e ali de forma mais ou menos silenciosa onde as manhãs acordam todos os dias iguais. E todos os dias nos sentimos cada vez mais cansados e sem esperança.

 

O futuro, e o saber que caminho se quer levar, deve ser pensando, estruturado e analisado com todos. Por essa razão, é , e deve ser essencial, realizar um debate sério e alargado a toda a nação, ouvindo e reflectindo sobre as ideias de todos os quadrantes que fazem parte integrante do contrato social assinado por todos nós na qualidade de cidadãos. 

A sociedade Portuguesa precisa de se repensar, de se estruturar e de abrir caminhos para que todos não se sintam a viver num permanente outono.

 

Todos temos um desígnio, uma opinião e uma ideia para o país, mas mais que tudo isso, cada um de nós tem sonhos.

Este país vai mergulhando numa espécie de qualquer coisa que ninguém ainda entendeu o que é, e o perigo, perigosamente espreita a cada dia que passa.

Temos o dever de parar para pensar sobre o que queremos, e para além disso, temos o dever moral de interrogar sem medo aqueles que decidem, aqueles que dão um rumo a esta nação e questionar se não haverá um outro caminho que nos possa conduzir a um lugar melhor.

 

O nosso país está de costas de voltadas para ele mesmo, o futuro é incerto, causa angústia e não se sabe para se onde caminha enquanto ficamos impávidos e serenos a olhar para um amanhã que todos os dias se julga ser melhor sem nunca o ser.

 

Mentem-nos descaradamente criando a ilusão e a expectativa de um Portugal que não vai ficar para trás e o resultado é sempre o mesmo década atrás de década. Ficamos sempre para para trás. 

Vendem-nos os mais belos sonhos. 

E nós, que fazemos? 

Nós lá vamos comprando tudo isto enquanto alimentamos todos estes vendedores de banha da cobra que pelo uso sistemático da mentira e da criação da ilusão vão destruindo uma nação cada vez mais apática, cómoda consigo mesma que sem pestanejar aceita tudo sem questionar quase nada.

 

Sobre todos nós recai a névoa do nunca saber o que contar, e aqueles que ainda podem abrir asas vão voando para lá do tempo levando com eles o que de mais precioso um indivíduo poder ter : os seus legítimos sonhos e uma  nação que os prende às mais variadas amarradas não resta alternativa: remar para bem longe daqui com todos as aspirações no bolso para se sentir alguém, para se sentir gente, e tudo porque como diz a canção , “ eu quis ser astronauta mas o meu país não deixou”.

 

Este Portugal hoje não se interroga, não se ouve, não escuta os outros e não quer saber dos anseios e das expectativas das suas gentes.

O país, ainda não se sentou à mesa para discutir para onde vai, e ao caminho que entretanto se é percorrido, se não se derem claros sinais de um futuro diferente, então isto só pode significar que falhámos. E sim, falhámos todos. 

 

É urgente reunir toda a sociedade civil, para se discuta de uma vez por todas o perigoso trajecto para onde nos querem levar. É preciso dar sinais claros, aos responsáveis, que não podemos continuar aqui sem que nos deixem ser livres.

As cordas que nos amarram a esperança terão ser cortadas de vez. 

Enquanto alguns aprisionaram os sonhos de muitos, ainda vamos a tempo de salvar a aspiração daqueles que ainda restam para devolver a esta nação tudo aquilo que nos vão roubando: a alegria.

Se ambicionamos as estrelas, então teremos que correr atrás do firmamento.

Há fome na minha freguesia.

Maio 13, 2021

Sérgio Guerreiro

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Vou chamar-lhe Maria. Simplesmente Maria. De olhar pesado e triste, transparecia uma vida cansada e gasta pelo tempo apesar dos seus ainda 40 anos de idade.

Os cabelos eram longos e escuros  tal como uma noite de novembro, apesar de mostrarem alguns rasgos de sol como se a esperança fosse por agora o seu único alimento.

De mãos trémulas e frias, a Maria tocou à campainha do meu escritório numa recente tarde mais ou menos calma e chuvosa  de uma segunda feira. Abri a porta e convidei-a a entrar.

Sentou-se e de imediato mas a medo, ia pendido desculpa por estar ali. Como se não devesse estar ou não tivesse o direito de ali estar.

 

O medo das palavras invadia-lhe o rosto que de vez em vez deixava cair uma lágrima ao chão pela vergonha daquilo que não conseguia dizer.

Pedi-lhe calma enquanto lhe dava um copo de água que ela ia bebendo tremulamente.

 

Devagar consegui que as palavras se soltam-se, mas rapidamente  quis dizer-me que não estava ali para me pedir dinheiro; tinha a consciência plena  que não me iria puder pagar.

 

O medo foi vagueado por entre o ambiente pesado que pairava no ar, mas lentamente como deve ser, foi-lhe mostrando confiança para que finalmente a Maria invoca-se a razão da sua presença no meu escritório naquela tarde chuvosa de segunda feira.

 

Estaria ali, porque não podia socorrer-se mais ninguém naquele momento.

 

A Maria, de olhos pesados e tristes não comia há dois dias e tudo o que tinha em casa se limitaria a um pacote de manteiga... mas sem pão.

 

O que fiz de seguida não tem interesse relatar.

Fiquei a saber o que ninguém gostará de saber mas é preciso que se saiba.

Fiquei a saber que há fome na minha freguesia como haverá em tantas outras, que há fome no meu concelho como haverá em tantos outros, que a fome no meu país como há em tantos outros.

 

A vergonha de pedir leva ao limite e a Maria naquela tarde chegou a esse limite porque a dor da fome também mata . A Maria não aguentaria muito mais sem qualquer apoio.

 

Não pode haver números reais para esta tragédia. Nunca saberemos quantos são aqueles que sofrem se pobreza envergonhada.

Grande parte dela em pequenos meios como este , não pode ser contabilizada porque não é conhecida.

 

Não sei e desconheço, como certamente a grande maioria de vós desconhecerá, se há por aí mais Maria de olhos tristes e cansados , mas com toda a certeza se olharmos à nossa volta, com os olhos da alma de cada um , é possível que encontremos muitas Marias com vergonha de dizerem que passam fome.

Este flagelo social deve ocupar sistematicamente a mente de cada um de nós e daqueles que nos “ governam” e as políticas sociais devem sempre sobrepor-se às políticas das obras.

 

Na minha freguesia, a Maria teve fome por dois dias.

A ilegalidade do Chega faz-se no combate político. Não é nos tribunais.

Dezembro 15, 2020

Sérgio Guerreiro

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Começa a cansar de ler e de ouvir, que num Estado de Direito Democrático como o nosso, não se perceba, ou não se queira entender , que a existência do Chega é tão legal como outra força política qualquer.
Não aceitar isto é não aceitar a democracia e não respeitar as instituições. Por outras palavras; tanto é justo e legal a existência partidária do Chega como é a do Bloco.
 
A análise poderá partir de um outro patamar.
 
O medo do crescimento exponencial de um Partido chamado de anti -sistema, sendo possível até que não seja assim tão anti-sistema como parece. O que se deve compreender para se poder combater o que quer que seja em política,  é em primeiro lugar  aceitar a democracia para depois encontrar no debate a raiz das questões.
Há que encontrar a razão do crescimento de um Partido como o Chega para se entender a sua crescente popularidade.
Dure muito ou pouco,  ele está cá, cria confusão e veio de alguma forma abanar toda uma classe política habitada ao silêncio opaco.
Mas este partido faz muito barulho. Diz o que qualquer cidadão gosta ouvir. Não apresenta medidas concretas para o nosso problema de crescimento. 
Vai dizendo que pagamos demais para uns que não fazem nada etc.. etc... O discurso que vende mas vazio de conteúdo. Ou seja, utiliza o marketing político na perfeição, mas vai enganando sem qualquer pudor como foi o caso da falsa marcação do conselho nacional. Teve que ser um comando de uma corporação de bombeiros , onde supostamente estaria marcado encontro do Partido Chega, a vir desmentir tudo isto.
Mas numa coisa André Ventura está bem preparado. Respostas não lhe faltam.
 
Aqui chegados a razão para tudo isto acontecer é só uma.
A falta e ausência de respostas claras para a vida comum das pessoas e das empresas. Essa mesma ausência é o prato preferencial das forças populistas , aliado a uma fraca e perdida oposição sem rumo e não aproveitando a seu favor as falhas de um governo que faz o que quer. É do conflito extremo e da falta de democracidade, que se alimenta os extremos.
Combater isto, só tem um caminho. Não é pelos tribunais como Ana Gomes promete fazer se for eleita.
É no terreno, cara a cara e não fugir ao combate. É pelos mais válidos argumentos que se combate em política.
Ana Gomes não entende como o Tribunal Constitucional legalizou o Chega. Eu digo-lhe. Foi da mesma forma como legalizou o Bloco ou outro partido qualquer.
Em suma , foi a democracia a funcionar.
Uma candidata a Presidente da República  que não entende isto, é melhor desistir já porque quando se desconhece as regras do Estado de Direito Democrático então é melhor parar por aqui.
 
Dito isto,  que não se meta o TC nestas quezílias politicas, porque o este órgão de soberania só cumpriu com o seu dever.
Para que Ana Gomes nos possa mostrar o que vale, que nos prove politicamente porque não se deve votar em André Ventura. Se a agora candidata prentender participar nas decisões do Tribunal Constitucional, pergunte como a Vitalino Canas.
 

Erradicar a pobreza. Testemunhei o que é mesmo ser pobre.

Outubro 17, 2020

Sérgio Guerreiro

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Não sei, felizmente, o que é ser pobre e passar fome mas consegui perceber com uma dor enorme no meu olhar o que é mesmo ser-se pobre e passar fome.
Ainda há vergonha de pedir  mas quem sente ao seu redor essa mesma vergonha não pode ficar indiferente a ela.
 
Mesmo à minha porta não via ou não reparava na extrema pobreza em que algumas pessoas vivem. 
Mas um dia parei e senti o cheiro a fome que andava ali em redor e decidi avançar para ela.
A Maria ( nome fictício ) olhava para mim como quase todas as tardes,  mas naquela tarde quem me olhou foi a fome. 
Entrei no carro com uma sensação estranha, mas não avancei. Sai de novo e foi ter com a Maria. Confesso que aquele olhar me incomodava bastante. A pergunta foi feita e a resposta era a esperada. Eram três da tarde e aquela mulher ainda tinha visto uma simples côdea de pão. Isto é duro de ouvir como deve ser duro sentir. Decidi fazer aquilo que qualquer pessoa faria.
 
Pedi à Maria para esperar por mim. Entrei de novo em casa para lhe fazer uma sandes que fiz acompanhar com um pacote de leite com chocolate. Os olhos daquela mulher virão depressa outra cor.

Este foi o mote para a Maria logo no dia seguinte fosse tocar à campainha do meu escritório. Sentiu -se livre e forte para o fazer.
 
Avisou de imediato que não vinha pedir dinheiro, mas sim comida e que não o pedia a muita gente por vergonha, porque no meio pequeno em que vivia não se sentia bem a fazê-lo, olhavam muito para ela, dizia. Todos sabiam que a fome rondava os dias na humilde casa onde vivia com rendas em atraso, mas ninguém se chegava perto. Ninguém lhe perguntava se já tinha comido, se tinha alguma coisa em casa para se alimentar. 

Estivemos à conversa durante uma hora onde tentei perceber se a Maria já tinha recorrido a alguma ajuda do Estado. Já tinha, mas a ajuda era de 300€ e a renda era de 250,00€. 
Pedi à Maria para tocar de novo à campainha do meu escritório durante na tarde dessa quinta feira. Não faltou à chamada, mas a fome, essa nunca faltava. 
Levou três sacos do que entendi ser necessário para ela poder confecionar. A Maria chorou, não de vergonha, mas de alguma pura felicidade por saber que durante uns dias, a fome não lhe bateria de novo à porta.
 
Em Portugal existe muitas “ Marias” e nós passamos ao lado delas como se nada fosse onde muitas vezes ouvimos o barulho de um estômago vazio. Ouvimos só e seguimos o nosso caminho, atravessamos a estrada e vamos comprar um bola de Berlim que não nos faz falta nenhuma. 
 
Erradicar este flagelo não é só uma questão política. É e deve ser uma questão de consciencialização social. Não nos podemos imiscuir do papel que temos enquanto membros de um todo mas isso caberá certamente a cada um de nós. 
A pobreza pode morar mesmo ao nosso lado, ser nossa vizinha e se não entendemos que a vergonha ainda invade o estômago de muita gente, não estamos a cumprir com o nosso papel social. 
Às vezes, ou muitas vezes, o primeiro passo pode ser dado por nós se soubermos e olhar à nossa volta e para outros.
 
Hoje comemorasse o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Em 2019 estimava-se que cerca 2,2 milhões de Portugueses se encontravam em risco.
 

 

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