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Melhor Política

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Morrem de Covid mas também de solidão.

Outubro 08, 2020

Sérgio Guerreiro

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Com um Pai e uma Mãe a meu encargo, daqui a uns anos, já sei que a minha vida não será fácil e os dias que vão passando são uma conta de somar a todos os outros que já passaram, mais dia menos dia, a hora haverá de chegar. Certamente não serei o único que já pensa no futuro dos seus pais. Existiu um dia em que eles pensaram no meu. A minha vez de pensar neles não tardará muito para chegar.
Enquanto sociedade sabemos que não temos condições para cuidar dos nossos ascendentes em casa de uma forma digna, segura e como achamos que merecem.
Sei que ainda é cedo para pensar em como deva proceder para que os meus pais possam terminar os seus dias de uma forma feliz com o mesmo Amor que ainda me vão dando e com o mesmo carinho que ainda vou recebendo. Todos os dias.

A minha hora aproximasse a passos largos e estou com medo de falhar como falha o meu País. O caso de Reguengos de Monsaraz e de tantos outros que ainda não conhecemos,  acordou o medo que ainda estava adormecido mas que agora me vai assolando todos os dias a alma. O tema não me deixa às vezes dormir com aquilo que vou lendo e ouvindo mas a não responsabilização dos actos inquieta-me e revolta-me. Todos mas todos, não podemos deixar de ser chamados a reflectir, no mínimo, sobre o que passa nos lares.

Sabemos do papel importante que cabe Estado, mas e o nosso papel sabemos qual é ?

Doí saber que muitos desses lares espalhados por este País fora são meros depósitos de idosos em que os filhos descartam as suas responsabilidades pagando o que tem que se pagar esquecendo-se  do seu papel transferindo a  sua responsabilidade para terceiros. É fácil dizer que o  Estado tem uma  grande dose de culpa. E tem.
Mas, e os 
filhos que deixam os seus pais entregues a uma qualquer instituição, quantas vezes lá vão ver se tudo está a correr “mais ou menos “?
Espreitar de vez em vez mas muitas vezes para sentir se os seus pais estão ou não a ser devidamente tratados ?
Será que as visitas regulares por parte dos filhos não resultariam também numa sensibilidade diferente por parte dos directores dos lares ?
Não se sentiriam eles “ pressionados” para que se alterasse algumas práticas que por aí vamos ouvindo com a visita regular dos filhos ? Não deverão ser eles também ser “fiscalizadores”?
Eu suma, ser parte conjunta de uma solução para um problema que não é só responsabilidade do Estado.
Entregar um Pai ou uma Mãe aos cuidados de num lar é assumir uma grande responsabilidade, não só social mas principalmente pessoal. Assim também fizeram eles connosco quando nos foram pôr na creche. É essa a responsabilidade pessoal que se deve também reflectir e debater sem medo. Em alguns lares muitos idosos carregam para além do peso da idade o peso dos olhos tristes da solidão, os dias vão passando e os filhos ainda não tiveram tempo para ir aliviar um pouco mais a dor que todos os dias carregam. Dia após dia.

Esta tarefa de combater a solidão não cabe ao Estado, não cabe ao lar nem ao seu “ staff” por melhor que ele seja.
Cabe ao Estado, isso sim,  verificar e fiscalizar sistematicamente as condições dos lares e formar técnicos especializados na área dando assim as melhoras condições a quem já tanto deu ao País.

Cabe aos filhos, como eu, saber que a idade não perdoa e que também um dia chegaremos à dependência dos outros como outrora.
Um Estado de bem não pode deixar ao abandono aqueles que contribuíram com esforço para o desenvolvimento do seu País e para isso não pode deixar o deve ser feito. Fiscalizar e formar quadros especializados para uma área tão sensível como esta. No fundo, prestar os cuidados necessários mas dignos. O que se passou em Renguegos de Monsaraz jamais se deve repetir sob pena , de aí sim, se concluir que este Pais não sabe cuidar.

A nós filhos, cabe-nos o dever de não os abandonar, o dever de estar com eles o máximo possível porque nós não substituímos o Estado quando os nossos pais esperam sentados  a olhar por uma janela de um quarto para que a hora chegue e se abra de vez a cortina para deixar entrar a morte.
Quando eles estão sentados a olhar por uma janela de um quarto, é possível que estejam só à nossa espera.
O tempo que se diz que não se tem, tem que aparecer porque a humanidade não pode andar à espera das horas, as horas é que ditam a humanidade.
Eu prometo não falhar como falha o meu País.

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