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Melhor Política

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Há fome na minha freguesia.

Maio 13, 2021

Sérgio Guerreiro

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Vou chamar-lhe Maria. Simplesmente Maria. De olhar pesado e triste, transparecia uma vida cansada e gasta pelo tempo apesar dos seus ainda 40 anos de idade.

Os cabelos eram longos e escuros  tal como uma noite de novembro, apesar de mostrarem alguns rasgos de sol como se a esperança fosse por agora o seu único alimento.

De mãos trémulas e frias, a Maria tocou à campainha do meu escritório numa recente tarde mais ou menos calma e chuvosa  de uma segunda feira. Abri a porta e convidei-a a entrar.

Sentou-se e de imediato mas a medo, ia pendido desculpa por estar ali. Como se não devesse estar ou não tivesse o direito de ali estar.

 

O medo das palavras invadia-lhe o rosto que de vez em vez deixava cair uma lágrima ao chão pela vergonha daquilo que não conseguia dizer.

Pedi-lhe calma enquanto lhe dava um copo de água que ela ia bebendo tremulamente.

 

Devagar consegui que as palavras se soltam-se, mas rapidamente  quis dizer-me que não estava ali para me pedir dinheiro; tinha a consciência plena  que não me iria puder pagar.

 

O medo foi vagueado por entre o ambiente pesado que pairava no ar, mas lentamente como deve ser, foi-lhe mostrando confiança para que finalmente a Maria invoca-se a razão da sua presença no meu escritório naquela tarde chuvosa de segunda feira.

 

Estaria ali, porque não podia socorrer-se mais ninguém naquele momento.

 

A Maria, de olhos pesados e tristes não comia há dois dias e tudo o que tinha em casa se limitaria a um pacote de manteiga... mas sem pão.

 

O que fiz de seguida não tem interesse relatar.

Fiquei a saber o que ninguém gostará de saber mas é preciso que se saiba.

Fiquei a saber que há fome na minha freguesia como haverá em tantas outras, que há fome no meu concelho como haverá em tantos outros, que a fome no meu país como há em tantos outros.

 

A vergonha de pedir leva ao limite e a Maria naquela tarde chegou a esse limite porque a dor da fome também mata . A Maria não aguentaria muito mais sem qualquer apoio.

 

Não pode haver números reais para esta tragédia. Nunca saberemos quantos são aqueles que sofrem se pobreza envergonhada.

Grande parte dela em pequenos meios como este , não pode ser contabilizada porque não é conhecida.

 

Não sei e desconheço, como certamente a grande maioria de vós desconhecerá, se há por aí mais Maria de olhos tristes e cansados , mas com toda a certeza se olharmos à nossa volta, com os olhos da alma de cada um , é possível que encontremos muitas Marias com vergonha de dizerem que passam fome.

Este flagelo social deve ocupar sistematicamente a mente de cada um de nós e daqueles que nos “ governam” e as políticas sociais devem sempre sobrepor-se às políticas das obras.

 

Na minha freguesia, a Maria teve fome por dois dias.

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