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Melhor Política

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Erradicar a pobreza. Testemunhei o que é mesmo ser pobre.

Outubro 17, 2020

Sérgio Guerreiro

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Não sei, felizmente, o que é ser pobre e passar fome mas consegui perceber com uma dor enorme no meu olhar o que é mesmo ser-se pobre e passar fome.
Ainda há vergonha de pedir  mas quem sente ao seu redor essa mesma vergonha não pode ficar indiferente a ela.
 
Mesmo à minha porta não via ou não reparava na extrema pobreza em que algumas pessoas vivem. 
Mas um dia parei e senti o cheiro a fome que andava ali em redor e decidi avançar para ela.
A Maria ( nome fictício ) olhava para mim como quase todas as tardes,  mas naquela tarde quem me olhou foi a fome. 
Entrei no carro com uma sensação estranha, mas não avancei. Sai de novo e foi ter com a Maria. Confesso que aquele olhar me incomodava bastante. A pergunta foi feita e a resposta era a esperada. Eram três da tarde e aquela mulher ainda tinha visto uma simples côdea de pão. Isto é duro de ouvir como deve ser duro sentir. Decidi fazer aquilo que qualquer pessoa faria.
 
Pedi à Maria para esperar por mim. Entrei de novo em casa para lhe fazer uma sandes que fiz acompanhar com um pacote de leite com chocolate. Os olhos daquela mulher virão depressa outra cor.

Este foi o mote para a Maria logo no dia seguinte fosse tocar à campainha do meu escritório. Sentiu -se livre e forte para o fazer.
 
Avisou de imediato que não vinha pedir dinheiro, mas sim comida e que não o pedia a muita gente por vergonha, porque no meio pequeno em que vivia não se sentia bem a fazê-lo, olhavam muito para ela, dizia. Todos sabiam que a fome rondava os dias na humilde casa onde vivia com rendas em atraso, mas ninguém se chegava perto. Ninguém lhe perguntava se já tinha comido, se tinha alguma coisa em casa para se alimentar. 

Estivemos à conversa durante uma hora onde tentei perceber se a Maria já tinha recorrido a alguma ajuda do Estado. Já tinha, mas a ajuda era de 300€ e a renda era de 250,00€. 
Pedi à Maria para tocar de novo à campainha do meu escritório durante na tarde dessa quinta feira. Não faltou à chamada, mas a fome, essa nunca faltava. 
Levou três sacos do que entendi ser necessário para ela poder confecionar. A Maria chorou, não de vergonha, mas de alguma pura felicidade por saber que durante uns dias, a fome não lhe bateria de novo à porta.
 
Em Portugal existe muitas “ Marias” e nós passamos ao lado delas como se nada fosse onde muitas vezes ouvimos o barulho de um estômago vazio. Ouvimos só e seguimos o nosso caminho, atravessamos a estrada e vamos comprar um bola de Berlim que não nos faz falta nenhuma. 
 
Erradicar este flagelo não é só uma questão política. É e deve ser uma questão de consciencialização social. Não nos podemos imiscuir do papel que temos enquanto membros de um todo mas isso caberá certamente a cada um de nós. 
A pobreza pode morar mesmo ao nosso lado, ser nossa vizinha e se não entendemos que a vergonha ainda invade o estômago de muita gente, não estamos a cumprir com o nosso papel social. 
Às vezes, ou muitas vezes, o primeiro passo pode ser dado por nós se soubermos e olhar à nossa volta e para outros.
 
Hoje comemorasse o Dia Internacional da Erradicação da Pobreza. Em 2019 estimava-se que cerca 2,2 milhões de Portugueses se encontravam em risco.
 

 

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